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Quarto disco de estúdio chegou ao topo das paradas em 1996, mas dividiu fãs ao abandonar parte do peso de Ten, Vs. e Vitalogy em favor de experimentações, influências orientais, rock de garagem e canções mais introspectivas
Há 30 anos, em 27 de agosto de 1996, o Pearl Jam lançava No Code, seu quarto álbum de estúdio e um dos trabalhos mais decisivos de sua trajetória. Depois do impacto gigantesco de Ten (1991), Vs. (1993) e Vitalogy (1994), a banda decidiu não repetir a fórmula que a havia transformado em uma das maiores forças do rock dos anos 1990. O resultado foi um disco mais irregular, experimental e introspectivo, que estreou no topo da Billboard 200, mas também provocou estranhamento em parte do público. Três décadas depois, No Code é reconhecido como um momento fundamental na evolução artística do grupo.
Lançado pela Epic Records exatamente cinco anos depois de Ten, No Code surgiu em um período particularmente turbulento para o Pearl Jam. A banda vinha de uma fase marcada pelo desgaste das turnês, pela disputa pública com a Ticketmaster e pelas tensões internas que acompanharam o ciclo de Vitalogy. As gravações começaram em julho de 1995, em Chicago, passaram por Nova Orleans e foram concluídas em Seattle no primeiro semestre de 1996, novamente com Brendan O'Brien na produção. O álbum também marcou a estreia de Jack Irons como baterista do grupo em um trabalho de estúdio.
Uma mudança deliberada de direção
Se Ten ajudou a estabelecer o Pearl Jam como uma potência do grunge e do rock alternativo, No Code parecia interessado justamente em escapar dessa definição. O disco ampliou consideravelmente o vocabulário musical da banda, combinando rock de garagem, punk, elementos acústicos, percussões, texturas próximas da música oriental e momentos de caráter quase contemplativo.
A transformação fica evidente logo em "Who You Are", primeiro single do álbum. A faixa troca os riffs mais convencionais por uma construção marcada pela bateria polirrítmica de Jack Irons e pelo uso de guitarra elétrica com sonoridade próxima à cítara. A canção chegou ao primeiro lugar da parada Modern Rock Tracks nos Estados Unidos e alcançou a 31ª posição da Billboard Hot 100.
O contraste aparece na própria sequência do disco. Depois da atmosfera de "Sometimes", "Hail, Hail" recupera uma abordagem mais direta e urgente, enquanto "In My Tree" aposta novamente em ritmos pouco convencionais. "Off He Goes" conduz o álbum para um território acústico e introspectivo; "Lukin" resume sua agressividade em pouco mais de um minuto; e "Present Tense" se tornou uma das composições mais duradouras daquele período.
A diversidade era justamente uma das características mais destacadas pela crítica. Na avaliação da AllMusic, No Code expandia a paleta sonora do Pearl Jam com riffs quase hipnóticos, percussões diferenciadas e uma nova sutileza, embora o álbum também fosse considerado um pouco incoerente.
Recepção dividida
A chegada de No Code não foi um fracasso comercial. Pelo contrário: o disco estreou em primeiro lugar na Billboard 200 e permaneceu duas semanas no topo. Na Austrália, também alcançou a liderança. Porém, seu desempenho ficou muito abaixo das expectativas criadas pelos trabalhos anteriores e ele se tornou o primeiro álbum do Pearl Jam a não alcançar certificação de múltiplas platinas nos Estados Unidos, recebendo posteriormente certificação de platina.
A reação crítica, por outro lado, foi majoritariamente favorável, ainda que reconhecesse o caráter irregular da obra. David Fricke, da Rolling Stone, atribuiu quatro de cinco estrelas ao disco e destacou justamente seus contrastes e mudanças de humor. A Q também deu quatro estrelas, enquanto a NME avaliou o trabalho com 7 de 10. Stephen Thomas Erlewine, da AllMusic, concedeu 3,5 estrelas e classificou No Code como o álbum mais rico e humano do Pearl Jam até então.
No Brasil, a recepção também chamou atenção para a ruptura. Em texto publicado pela Folha de S.Paulo em setembro de 1996, Álvaro Pereira Júnior descreveu o disco como uma obra que alternava silêncios e explosões, contemplação e desespero, ressaltando a força de músicas como "In My Tree" e "Present Tense".
O estranhamento de parte dos fãs era compreensível. Quem esperava outro álbum repleto de grandes riffs e refrões de arena encontrou uma banda menos interessada em reproduzir o passado. No Code não abandonava completamente o rock pesado, mas colocava esse elemento ao lado de canções acústicas, experimentações e estruturas menos previsíveis.
As curiosidades de No Code
A embalagem do álbum também acompanhava a proposta de romper com convenções. A arte foi construída a partir de uma coleção de fotografias Polaroid que formava um mosaico quando organizada em conjunto. Entre as imagens estão registros inusitados, como o olho do ex-jogador de basquete Dennis Rodman e uma fotografia do pé de Eddie Vedder após uma ferroada de arraia. As imagens, quando agrupadas, criavam o símbolo associado ao disco.
Outra particularidade está no próprio título. "No Code" faz referência a uma expressão médica relacionada a uma ordem para não realizar ressuscitação cardiopulmonar. Eddie Vedder também associou o nome à ideia de "não ressuscitar" a própria banda em sua antiga forma, uma interpretação que combina com a postura adotada pelo grupo naquele momento.
O processo de gravação também fugiu de uma metodologia convencional. O grupo trabalhou inicialmente durante uma semana em Chicago, em meio a uma intensa onda de calor, e depois aproveitou uma pausa na turnê para registrar material em Nova Orleans. A etapa final aconteceu no Studio Litho, em Seattle, espaço pertencente a Stone Gossard.
O repertório trouxe 13 faixas e três singles oficiais: "Who You Are", "Hail, Hail" e "Off He Goes". Apesar de "Present Tense" nunca ter sido lançada como single convencional, a música se tornou uma das mais importantes do álbum no repertório ao vivo do Pearl Jam.
Um disco que cresceu com o tempo
A relação do público com No Code mudou consideravelmente ao longo das décadas. Se em 1996 o disco representava uma ruptura desconfortável para quem esperava a sonoridade dos primeiros trabalhos, suas características passaram a ser vistas como parte essencial da identidade artística do Pearl Jam.
A permanência das músicas nos shows ajuda a explicar essa transformação. Segundo dados compilados pelo setlist.fm e citados pelo Noise11, "Hail, Hail" já foi executada mais de 250 vezes, enquanto "Lukin" também ultrapassou a marca de 250 apresentações. "Present Tense" soma mais de 150 performances, e "Off He Goes" também permanece entre as composições do álbum que continuam aparecendo nos palcos.
Em 2014, o Pearl Jam levou essa relação ao extremo ao apresentar No Code na íntegra durante um show em Moline, nos Estados Unidos. A decisão mostrou o quanto um álbum inicialmente visto como difícil havia se integrado ao repertório histórico da banda.
Trinta anos depois, No Code pode ser entendido menos como uma tentativa de abandonar o Pearl Jam que o público conhecia e mais como uma demonstração de que a banda não pretendia ficar presa a ele. O disco trocou parte da grandiosidade de Ten e Vs. por risco, espontaneidade e variedade. Ao fazer isso, ajudou a pavimentar o caminho para Yield, lançado em 1998, e para a trajetória posterior do grupo.
No fim, a maior curiosidade de No Code talvez seja justamente sua capacidade de ter sobrevivido ao próprio estranhamento inicial. O álbum chegou ao primeiro lugar das paradas, perdeu rapidamente espaço comercial e dividiu opiniões, mas suas músicas permaneceram vivas nos shows e ganharam novas camadas de significado com o passar dos anos. Aos 30, o disco que um dia pareceu uma ruptura é também uma das melhores provas da disposição do Pearl Jam em mudar antes que o público pudesse exigir que ele permanecesse igual.

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