System of a Down: como Toxicity chegou ao topo dos EUA em meio ao caos do 11 de Setembro

Divulgação 

 Segundo disco da banda chegou às lojas dias antes dos ataques, e “Chop Suey!” foi considerada inadequada para execução nas rádios naquele momento

Lançado apenas uma semana antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, Toxicity transformou o System of a Down em um dos maiores nomes do metal mundial justamente quando os Estados Unidos mergulhavam em um período de medo e tensão, enquanto “Chop Suey!”, seu maior sucesso naquele momento, era colocada entre as músicas consideradas inadequadas para execução nas rádios após os ataques.

O segundo álbum de estúdio do System of a Down chegou às lojas em 4 de setembro de 2001, pela American Recordings e Columbia Records, com produção de Rick Rubin e do guitarrista Daron Malakian. Gravado entre março e julho daquele ano no Cello Studios, em Hollywood, o trabalho ampliou as possibilidades apresentadas pelo disco de estreia, lançado em 1998, misturando metal alternativo, nu metal, punk, rock progressivo, elementos da música armênia e outras referências pouco convencionais.

A banda formada por Serj Tankian, Daron Malakian, Shavo Odadjian e John Dolmayan já havia conquistado uma base fiel com seu primeiro álbum, mas Toxicity representava um salto de proporções muito maiores. “Chop Suey!”, lançada como primeiro single em 13 de agosto de 2001, ajudou a preparar o terreno para o que viria. A composição rapidamente ganhou espaço nas rádios e na MTV, enquanto o grupo se preparava para lançar o novo trabalho.

O disco apresentava uma combinação pouco comum de agressividade, melodias marcantes e letras que transitavam entre críticas sociais, política, religião, encarceramento, dependência química, alienação e questões existenciais. “Prison Song”, por exemplo, atacava o sistema prisional americano; “Deer Dance” carregava uma leitura política; a faixa-título observava Los Angeles sob uma perspectiva crítica; e “Aerials” encerrava o álbum com uma atmosfera muito mais contemplativa.

Mas a própria chegada do álbum às lojas já aconteceu em meio a uma situação inusitada.


Antes do 11 de Setembro, um show terminou em tumulto

Na véspera do lançamento, em 3 de setembro, o System of a Down havia planejado um show gratuito em um estacionamento de Hollywood para promover Toxicity. A expectativa era reunir cerca de 4 mil a 5 mil pessoas. O interesse, porém, foi muito maior: aproximadamente 15 mil fãs apareceram.

A estrutura não suportava o público. O Corpo de Bombeiros determinou o cancelamento da apresentação antes que a banda pudesse tocar. A frustração rapidamente se transformou em tumulto, com equipamentos destruídos e confrontos envolvendo parte da multidão e a equipe.

Shavo Odadjian posteriormente contou que o episódio foi um dos primeiros sinais de que o grupo havia alcançado uma dimensão que seus integrantes ainda não tinham compreendido. Em entrevista à Kerrang!, o baixista lembrou que a banda esperava um público muito menor e que, diante da decisão das autoridades, tentou convencer o responsável pela segurança a permitir ao menos que os músicos aparecessem para explicar a situação. Não adiantou.

Serj Tankian também recordou o episódio anos depois. Segundo o vocalista, o grupo esperava entre 3 mil e 4 mil pessoas, mas viu o número chegar a algo entre 15 mil e 20 mil. A apresentação foi cancelada, e a banda acompanhou pela televisão as imagens da confusão que se espalhava pelas ruas de Hollywood.

Naquele momento, entretanto, o maior acontecimento da carreira do System of a Down ainda estava por vir.


Toxicity chega ao topo enquanto os Estados Unidos entram em choque

Na manhã de 11 de setembro de 2001, os integrantes da banda estavam prestes a descobrir que Toxicity havia alcançado o primeiro lugar da Billboard 200.

O álbum vendeu cerca de 222 mil cópias em sua primeira semana e acabou oficialmente no topo da principal parada de discos dos Estados Unidos. A divulgação inicial chegou a colocar o System of a Down em segundo lugar, mas uma correção posterior reposicionou Toxicity no número 1. A Los Angeles Times registrou a correção, informando as 222 mil cópias vendidas e a liderança do grupo.

O problema é que a notícia chegou aos músicos no mesmo dia em que o país era atingido pelos ataques terroristas.

Shavo Odadjian contou que estava em Los Angeles quando sua mãe telefonou e pediu que ele ligasse a televisão. Enquanto assistia às imagens da tragédia, o empresário entrou em contato para dar a notícia de que Toxicity havia chegado ao primeiro lugar. Décadas depois, o baixista ainda descreveu aquele momento como algo difícil de separar da tragédia que acontecia simultaneamente.

“Foi uma época muito estranha”, resumiu Shavo ao recordar o episódio.

Serj Tankian viveu a mesma contradição. Em entrevista posterior à Apple Music, o vocalista lembrou que o álbum havia chegado ao topo justamente quando os Estados Unidos estavam mergulhados no caos. A banda estava com uma turnê planejada e “Chop Suey!” era o principal single, mas a realidade ao redor havia mudado completamente.

“Parecia que o mundo inteiro estava explodindo”, recordou Tankian.

Capa do álbum Toxicity 


Por que Chop Suey! entrou na mira das rádios?

A música que mais sofreria as consequências daquele novo ambiente era justamente “Chop Suey!”.

A faixa trazia versos sobre morte e apresentava a expressão “self-righteous suicide”, referência que passou a ser considerada particularmente sensível depois dos ataques. O título da composição, curiosamente, não aparece na letra.

Antes mesmo do 11 de Setembro, a música já tinha uma relação peculiar com a palavra “suicide”. O título original seria simplesmente “Suicide”, mas a gravadora considerou a denominação inadequada para o mercado. A solução encontrada pela banda foi “Chop Suey!”, expressão que, segundo Shavo, funciona como uma espécie de “suicide” cortado ao meio.

A situação mudou radicalmente depois dos ataques.

Uma lista atribuída à Clear Channel, então uma das maiores proprietárias de emissoras de rádio dos Estados Unidos, passou a circular com músicas consideradas inadequadas para aquele momento. “Chop Suey!” aparecia entre elas, ao lado de dezenas de outras gravações cujos títulos ou letras poderiam remeter a morte, guerra, fogo, queda, explosões, violência ou outros elementos associados à tragédia.

A música do System of a Down, portanto, não foi proibida por uma lei federal. A lista funcionava como uma orientação para que programadores evitassem determinadas faixas. A documentação posteriormente associada ao episódio descreve as músicas como “lyrically questionable”, e não como obras legalmente banidas.

A própria Clear Channel negou inicialmente a existência de uma lista oficial de músicas proibidas. Em 20 de setembro de 2001, o Guardian publicou que a empresa havia classificado como rumor a ideia de que teria banido músicas de suas emissoras. A companhia afirmou que cada estação deveria decidir sua programação de acordo com a sensibilidade de seu público.

É por isso que a história de “Chop Suey!” precisa ser contada com alguma cautela: a faixa foi retirada ou evitada em determinadas programações e apareceu na lista de músicas consideradas inadequadas no pós-11 de Setembro, mas não houve um banimento nacional determinado pelo governo americano.

Para o próprio System of a Down, contudo, o efeito foi muito concreto.

Tankian recordou posteriormente que integrantes e pessoas próximas telefonavam perguntando se a banda havia de alguma forma “previsto” os ataques por causa da letra de “Chop Suey!”. A situação deixou o grupo perplexo, especialmente porque a música havia sido escrita e lançada antes da tragédia.


Serj Tankian também provocou uma reação política

A relação entre Toxicity e o clima político daquele período não terminou com “Chop Suey!”.

Dois dias depois dos atentados, em 13 de setembro, Serj Tankian publicou o texto “Understanding Oil”. O vocalista tentou discutir as possíveis causas políticas e históricas do terrorismo e questionou aspectos da política externa dos Estados Unidos.

A publicação foi muito além de uma simples manifestação de solidariedade às vítimas. Tankian procurou discutir o contexto internacional que, em sua visão, precisava ser considerado para compreender a violência. O texto começava afirmando que os ataques daquela semana haviam mudado os tempos para sempre e apresentava uma reflexão sobre terrorismo, violência e política externa.

A posição provocou reação. Tankian precisou posteriormente defender suas ideias publicamente, inclusive em uma participação no programa de Howard Stern, enquanto a própria banda enfrentava a repercussão do texto. Décadas depois, a história continuaria sendo lembrada como um dos episódios mais controversos da ascensão do grupo.


Um álbum lançado no momento mais improvável possível

A ironia histórica de Toxicity está justamente na coincidência de datas.

O System of a Down havia acabado de passar por um tumulto causado por milhares de fãs na véspera do lançamento. No dia seguinte, colocou seu segundo disco nas lojas. Uma semana depois, os Estados Unidos sofreram os atentados de 11 de Setembro. Naquele mesmo período, o álbum alcançou o topo da Billboard 200, enquanto “Chop Suey!” era associada a uma lista de músicas que as rádios deveriam evitar.

Mesmo em meio ao cenário adverso, Toxicity não apenas sobreviveu como se consolidou comercialmente. O trabalho alcançou o primeiro lugar da Billboard 200, vendeu mais de 220 mil cópias em sua semana inicial e se tornou o grande ponto de virada da carreira do grupo. Anos depois, a RIAA certificaria o álbum com múltiplos discos de platina; segundo a Sony Music, o trabalho já havia ultrapassado 6 milhões de cópias vendidas mundialmente quando a banda divulgou seus resultados em 2005.

O sucesso também não ficou restrito a “Chop Suey!”. “Toxicity” e “Aerials” foram lançadas posteriormente como singles, enquanto o álbum passou a ser reconhecido como um dos trabalhos mais importantes do metal do início dos anos 2000.

Mais de duas décadas depois, a história de Toxicity continua inseparável daquele setembro de 2001. O disco chegou ao mercado quando o System of a Down finalmente estava pronto para dar o salto ao mainstream, mas encontrou um país transformado por uma tragédia poucas horas depois de alcançar seu primeiro grande triunfo.

E “Chop Suey!”, a música que havia ajudado a colocar o grupo no centro das atenções, acabou se tornando também um dos símbolos da relação entre música, censura informal e medo no período imediatamente posterior ao 11 de Setembro.

Não houve uma lei que proibisse o System of a Down de tocar nas rádios. Houve algo mais complexo: programadores tentando reagir a uma sociedade traumatizada, uma lista de músicas consideradas inadequadas, uma banda politicamente inquieta e uma canção cuja palavra mais controversa ganhou um peso completamente diferente depois de uma tragédia que ninguém poderia ter previsto.

Foi assim que Toxicity deixou de ser apenas o segundo álbum do System of a Down. Tornou-se o registro de uma banda que chegou ao topo justamente quando o mundo ao seu redor parecia desabar.


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