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Filme brasileiro traz uma outra visão da violência estatal da época e concorre em quatro categorias no Oscar deste ano
Com a proximidade do Oscar 2026, marcado para domingo, dia 15/03, as expectativas em torno do sucesso de bilheteria “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (“Aquarius”, “Bacurau”), aumentam. Isso porque temos a possibilidade de um bicampeonato na categoria “Melhor Filme de Língua Não Inglesa”, repetindo o feito do ano passado, quando “Ainda Estou Aqui” trouxe a primeira estatueta para o Brasil.
Além dessa categoria, o filme concorre com outras três indicações: “Melhor Filme”, a estreante da noite “Melhor Elenco” e o justo reconhecimento de Wagner Moura, indicado como “Melhor Ator”, se igualando a Fernanda Torres no ano passado, que concorreu como “Melhor Atriz” pelo trabalho em “Ainda Estou Aqui”, mas infelizmente não venceu. Vale lembrar que Wagner Moura é o primeiro brasileiro indicado na categoria de Melhor Ator na história do Oscar.
Destaca-se ainda que a atriz Tânia Maria, intérprete de “Dona Sebastiana”, responsável pela pensão que hospeda Moura no filme, foi nitidamente ignorada pela Academia e poderia ter sido a nossa quinta indicação, concorrendo como “Melhor Atriz Coadjuvante”, com possibilidade inclusive de vitória. Aos 79 anos, depois de ter atuado como figurante em “Bacurau”, ela assume um papel de destaque e entrega uma atuação simples, mas ao mesmo tempo brilhante, mostrando que não há idade para o começo da carreira.
Além de Tânia Maria, a Academia novamente ignora um diretor brasileiro. Kleber Mendonça merecia a indicação como “Melhor Diretor”. Mesmo que não levasse o prêmio, isso já seria um reconhecimento justo. Sem contar a não indicação na categoria “Melhor Roteiro Original”, novamente ignorando a qualidade de um roteiro do cinema nacional. Aparentemente, ainda não entenderam que o brasileiro sabe escrever — e muito bem, diga-se de passagem.
Sobre o filme, ele se passa na capital pernambucana, Recife, em 1977, durante a Ditadura empresarial-militar vigente no Brasil à época. Somos apresentados ao professor e pesquisador universitário Marcelo, que precisou se refugiar após ser perseguido em São Paulo por conduzir pesquisas de avanços tecnológicos em sua área de atuação junto com sua equipe, que também fora perseguida.
Dentro dessa lógica, Kleber já nos entrega, com brilhantismo, uma outra visão da ditadura, que por tantas vezes repetiu exaustivamente que as perseguições só ocorreram com pessoas consideradas “subversivas” ou “comunistas”. “O Agente Secreto” mostra que essa premissa é falsa e que professores, pesquisadores, alunos, funcionários públicos, jornalistas ou até mesmo pessoas contrárias ao regime, mas sem ligações políticas ou partidárias, sofreram com a brutal violência estatal, recorrendo ao exílio fora do país ou, como no caso de Marcelo (Moura), em outro estado. Com a fuga para o Nordeste, entra em cena uma rede de apoio organizada por “Dona Sebastiana”, que sustenta uma resistência silenciosa e discreta aos perseguidos pelo regime.
Esteticamente, o filme é muito bom. Kleber Mendonça nos leva a uma viagem no tempo de volta aos anos 70 em detalhes, seja no figurino, no cenário ou até mesmo nos carros da época — destaque para o Fusca amarelo dirigido por Moura. Além da estética, o diretor traz lendas urbanas nacionais, como a da “perna cabeluda”, famosa na capital pernambucana durante a ditadura, apresentando ao público em geral, de forma cômica, nossa cultura e nosso povo, tantas vezes esquecidos.
Além dos já mencionados Wagner Moura e Tânia Maria, o filme conta ainda com ótimas atuações de Gabriel Leone (“Eduardo e Mônica”), Maria Fernanda Cândido (“O Traidor”) e do Delegado Euclides, interpretado pelo ator cearense Robério Diogene, nos colocando como fortes concorrentes na nova categoria de “Melhor Elenco”.
Os destaques negativos ficam por conta do experiente Luciano Chirolli (“Todos os Mortos”, “Bruna Surfistinha”), que não convence no importante papel do diretor do instituto em que trabalha Marcelo. Simpático ao regime, ele é um dos responsáveis pela fuga de Moura para Recife e por sua perseguição. Além dele, a esposa de Marcelo, interpretada por Alice Carvalho, também deixa a desejar nos poucos minutos em que aparece. O principal destaque negativo fica por conta de Gregorio Graziosi, com uma atuação bem abaixo de um elenco qualificado, em cenas confusas e, algumas vezes, sem muito sentido.
Categorias e chances de O Agente Secreto no Oscar 2026
Nas categorias “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” e “Melhor Elenco”, “O Agente Secreto” desponta como um dos favoritos, mesmo contra um grande adversário: “A Voz de Hind Rajab”, que concorre também como “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” e que pode nos tirar o bicampeonato.
Já na categoria principal de “Melhor Filme”, apesar de “O Agente Secreto” ter vários predicados, é importante lembrar que a única vez que a Academia premiou um filme de língua não inglesa na principal categoria da noite foi em 2020, quando o sul-coreano “Parasita” levou praticamente tudo o que disputou, inclusive Melhor Filme — e, sejamos sinceros, seria impossível não premiar o longa, que é uma obra de arte atemporal. Seguindo essa linha histórica, as chances de vitória como “Melhor Filme”, infelizmente, são baixas.
Já na categoria “Melhor Ator”, Wagner Moura surge como um dos favoritos, incorporando com maestria a diversidade dos vários momentos de Marcelo durante o longa. Mas ele terá forte concorrência contra nomes já carimbados na premiação, como Leonardo DiCaprio, por “Uma Batalha Após a Outra”; o novo queridinho de Hollywood, Timothée Chalamet, por “Marty Supreme”; Michael B. Jordan, por “Pecadores”; e o experiente Ethan Hawke, por seu papel em “Blue Moon”. A briga será boa, ainda mais depois que Moura levou o Golden Globe deste ano na categoria “Melhor Ator em Filme de Drama”, repetindo o feito de Fernanda Torres no ano passado, quando venceu como Melhor Atriz.
Além dos prêmios já conquistados e dos que ainda podem vir, “O Agente Secreto” cumpre um papel importante ao manter vivo o debate sobre o legado sombrio da Ditadura empresarial-militar, inclusive renovando-o com sua visão muito bem construída por Mendonça. Destaque também para a cultura popular nordestina em uma das capitais mais importantes do país, seja no plano cultural ou de resistência: Recife, em Pernambuco.
O filme serve para lembrarmos daqueles e daquelas que lutaram, mesmo sem armas, contra um regime que, por mais de 20 anos, oprimiu, perseguiu, prendeu e matou milhares de pessoas, mantendo viva a memória de tempos sombrios que não devem ser esquecidos — para que, assim, nunca mais se repita.


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